4.10.07

Uma questão semiótica

Dia desses recebi uma filipeta divulgando uma festa.
Olhei, achei estranho, mas não pude identificar o que me incomodava.
Isso aconteceu durante um almoço enquanto discuia o tal impresso com já citado (e famigerado) Gabiru.
De repente me dei conta que não tanto pelo Design em si, mas por uma questão de conteúdos e das implicações que a articulação da mensagem criava.
Portanto, não vou discutir aqui aspectos relativos à forma, mas aspectos comunicacionais, que ao meu ver também são de responsabilidade do designer, retratando sua capacidade comunicativa e também ideológica, e na medida em que reproduz ou sustenta preconceitos.
A questão é a seguinte:
Não me ocorreu guardar a filipeta na hora, portanto reporto ao site do evento onde pude resgatar a imagem que se encontrava na filipeta.


Ao olhar a imagem me ocorreu: apenas mais uma festa, design discreto, loira com cara de atriz pornô..
Ok, a opção 1 ( ou seja, a intenção da comunicação era)
Opção 1- uma festa promovida pela vodka Absolut (sueca) em que as pessoas deveriam ir vestidas de branco.
Tá, mas não é tão óbvio assim.
Vamos observar a articulação dos signos: todos os elementos formais reforçam a idéia da cor branca, seja no fundo com degradê de cinza para o branco, no logotipo em branco, no vestido da donzela e... na cor da pele da donzela.
Depois, pensei de novo e reli o nome da festa:
Absolut White Party.
e o subtítulo (este sim com uma tipografia esquisita e pouco legível): from Sweden with love.
Se ignorarmos que a Suécia é o país natal desta vodka, e entendermos apenas como um "celeiro" de loiras, juntando os outros elementos da mensagem podemos propor a nossa opção 2.
Opção 2- uma festa em resposta à altura daquela camiseta 100% negro. Ou seja, celebrando uma Festa Absolutamente Branca. Afinal, quer algo mais branco que louras suecas?

Tá, pode parecer que estou forçando a barra, mas lembrem-se que o fato de colocar uma loira (e que loira!!) não contribui em nada para a mensagem, além de dar margem a um caráter racista da mensagem. Minha sugestão seria representar multiplas etnias se divertindo numa festa, todas vestidas de branco. Esta sugestão não é pra querer ser politicamente correto, mas para se ter ciência de que é fundamental a observação dos discursos, e que tipos de ideologias traduzem. Não quer dizer que o designer, ou seja lá quem fez a filipeta, seja racista. Mas será que ele refletiu sobre a maneira como através da articulação de texto e imagem cria um discurso que pode reforçar estereótipos e reproduzir preconceitos?

Afnal, com o mesmo título de Absolut White Party, poderíamos colocar também esta imagem:

KKK rally - 1925

5 comentários:

Kath disse...

Ui!

Tom disse...

Bom, bom...
Sabe, vou contar minha situação:
Meu nome é Tomaz e eu tenho 17 anos. Estou terminando o 3º ano e já vou fazer vestibular final desse ano. E adivinhe!! Vou fazer design! Sou um bom desenhista e desenho desde pequeno, mas não só por causa disso me interessei por design. Então, hoje, navegando na net, descobri esse blog, e achei o máximo!!! Deixo aqui meu blog, para que vocês possam dar uma olhada. Quero trocar uma idéia com vocês, e saber os prós e contras desse curso que eu acho muito legal. Ah, o blog é uma parceria entre uma amiga minha (a Valkiria) e eu, e ambos queremos fazer design. Agradeço a atenção desde já e espero resposta! Tchau

Girardet disse...

é Ricardo, realmente ficou meio estranho esse negócio. Mas será que esse estranhamento é só em nossa sociedade multirracial? Esse ruído pode ter surgido pela mera cópia do que vem de fora, sei lá.

Ricardo Artur disse...

Bom,

Girardet:
acho que as coisas devem ser pensadas dentro de seus contextos culturais, e não desatreladas deles. Acho um exercício importante observar que mensagens estão sendo transmitidas. FORMA e CONTEÚDO não estão dissociados.

Tomaz:
é sempre bom ter esse retorno, até para sabermos quem está lendo o blog. Infelizmente nosso blog não anda tão prolífico quanto gostaríamos, precisamos nos dedicar um pouco mais. Visitarei seu blog em breve.

Kath:
Ui mesmo!

Guix disse...

Só digo uma coisa: Cuidado com as companias, Carlos Jorge...